sábado, 31 de maio de 2008


19 Anos de Ausência do Leminski

Em 07.06 fará 19 anos que o poeta curitibano Paulo Leminski se ausentou desse planeta. Mas continua mais vivo do que nunca! Cultuado por várias gerações, inclusive as que nem chegaram a conhece-lo.
Suas poesias possuem uma lógica inconfundível. Embora bastante livre, possui um ritmo delicioso, que chega a ser musical. Tudo rima nas suas poesias, principalmente suas idéias, sempre surpreendentes. Moderna e única, sua obra possui uma inteligência brilhante, um estilo que só Leminski é capaz de criar.
Vou postar algumas poesias que eu adoro e espero que os leitores do blog também incluam as suas preferidas. Essa é a melhor homengem que um poeta pode receber: Sua imortalidade através da divulgação de seu trabalho. Permitir a outras gerações a oportunidade de conhecer sua obra.
Epitáfio para alma

aqui jaz um artista
mestre em
desastres
viver com a intensidade da arte
levou-o ao infarte deus
tenha
pena dos seus disfarces
Paulo Leminski

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A Despedida Eterna - H Dobal

"Só mesmo um poeta ecumênico como Dobal podia fixar a sua
província com expressão tão
exata, a um tempo
tão fresca e tão seca, despojada
de quaisquer sentimentalidades,
mas rica do sentimento
profundo, visceral da terra."
Manuel Bandeira


Quando morre um poeta? Um poeta nunca morre!
Um poeta se petrifica em sua obra
no instante que os lemos, recitamos, sonhamos...
Neste momento Dobal vive em seus versos
em A Eterna Despedia.


Quando a sombra cai sobre as cousas resignadas,
Quando a sombra cai sobre os telhados encardidos,
Quando a sombra cai sobre as águas turvas do crepúsculo.


Não é a sombra em outra sombra se virando,
mas é a eterna despedida.
H Dobal

domingo, 18 de maio de 2008

Mario Quintana - Poesias

Diziam os amigos mais íntimos, que Mario Quintana era o poeta das coisas simples e fazia pouco caso em relação à crítica. Conforme costumava comentar, sua poesia era feita simplesmente por sentir necessidade de escrever.
Em 1928 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande. Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando em 1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob a direção de Erico Verissimo.
Dentre suas obras traduzidas, destacamos: Lin Yutang, Charles Morgan, Maupassant, Proust, Rosamond Lehman, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, . Em sua poesia há um constante travo de pessimismo e muito de ternura por um mundo que, parece, lhe é adverso.

BILHETE
Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho,
Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

POEMINHA SENTIMENTAL
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.

Aforismos,pensamentos & verdades de Mário Quintana

Mário Quintana, nas palavras de Fausto Cunha "soube manter-se fiel ao seu gênio poético, à sua vocação lírica, quando tantos em torno dele se esgotavam em caminhos equivocados". E poetando suas emoções, seus sentimentos, ele faz de si um espelho do mundo que o cerca, não raro abrindo mão de sua face dita angelical para refletir imagens da vida com fina ironia e, às vezes, com ácido sarcasmo.
Do Caderno H

A Arte de Ler
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.
A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.
A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
A Voz
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.
Ars Longa
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.
Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.
Biografia
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.
Cartaz para uma feira do livro
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.
Citação
De um autor inglês do saudoso século XIX: "O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente."
Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."
Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.
Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.
Das Escolas
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.
Destino Atroz
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.
Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.
Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.
Dos Livros
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.
Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.
Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.
Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.
Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.
Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...
Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!
Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.
Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.
Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.
Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.
Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.

*Pensamentos extraídos do livro "Do Caderno H", Editora Globo - Porto Alegre, 1973, págs. diversas.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho

"O Guardador de Águas",Ed. Civilização Brasileira.


Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre aspalavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdadenem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,etc.
(essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
12Seu França não presta pra nada
-Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu
as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.
13Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.Em que os capins lhes entram,
aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono,
apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Mil vezes lindo!

..."E, quando notou que aceitava em pleno o amor,
sua alegria foi tão grande que
o coração lhe batia por todo o corpo,

parecia-lhe que mil corações batiam-lhe
nas profundezas de sua pessoa.

Um direito-de-ser tomou-a,
como se ela tivesse acabado de chorar
ao nascer."(Clarice Lispector)

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