
sábado, 31 de maio de 2008
19 Anos de Ausência do Leminski
Em 07.06 fará 19 anos que o poeta curitibano Paulo Leminski se ausentou desse planeta. Mas continua mais vivo do que nunca! Cultuado por várias gerações, inclusive as que nem chegaram a conhece-lo. Suas poesias possuem uma lógica inconfundível. Embora bastante livre, possui um ritmo delicioso, que chega a ser musical. Tudo rima nas suas poesias, principalmente suas idéias, sempre surpreendentes. Moderna e única, sua obra possui uma inteligência brilhante, um estilo que só Leminski é capaz de criar.
Vou postar algumas poesias que eu adoro e espero que os leitores do blog também incluam as suas preferidas. Essa é a melhor homengem que um poeta pode receber: Sua imortalidade através da divulgação de seu trabalho. Permitir a outras gerações a oportunidade de conhecer sua obra.
Epitáfio para alma
aqui jaz um artista
mestre em
desastres
viver com a intensidade da arte
levou-o ao infarte deus
tenha
pena dos seus disfarces
aqui jaz um artista
mestre em
desastres
viver com a intensidade da arte
levou-o ao infarte deus
tenha
pena dos seus disfarces
Paulo Leminski
sexta-feira, 30 de maio de 2008
A Despedida Eterna - H Dobal
"Só mesmo um poeta ecumênico como Dobal podia fixar a sua província com expressão tão
exata, a um tempo
tão fresca e tão seca, despojada
de quaisquer sentimentalidades,
mas rica do sentimento
profundo, visceral da terra."
Manuel Bandeira
Quando morre um poeta? Um poeta nunca morre!
Um poeta se petrifica em sua obra
no instante que os lemos, recitamos, sonhamos...
Neste momento Dobal vive em seus versos
em A Eterna Despedia.
Quando a sombra cai sobre as cousas resignadas,
Quando a sombra cai sobre os telhados encardidos,
Quando a sombra cai sobre as águas turvas do crepúsculo.
Não é a sombra em outra sombra se virando,
mas é a eterna despedida.
H Dobal
quinta-feira, 29 de maio de 2008
domingo, 18 de maio de 2008
Mario Quintana - Poesias
Diziam os amigos mais íntimos, que Mario Quintana era o poeta das coisas simples e fazia pouco caso em relação à crítica. Conforme costumava comentar, sua poesia era feita simplesmente por sentir necessidade de escrever.Em 1928 ingressou no jornal O Estado do Rio Grande. Após ter participado da Revolução de 1930, mudou-se para o Rio de Janeiro, retornando em 1936 para a Livraria do Globo, em Porto Alegre, onde trabalhou sob a direção de Erico Verissimo.
Dentre suas obras traduzidas, destacamos: Lin Yutang, Charles Morgan, Maupassant, Proust, Rosamond Lehman, Voltaire, Virginia Woolf, Papini, . Em sua poesia há um constante travo de pessimismo e muito de ternura por um mundo que, parece, lhe é adverso.
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,enfim,tem de ser bem devagarinho,
Amada,que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu, agora - que desfecho!
Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
POEMINHA SENTIMENTAL
O meu amor, o meu amor, Maria
O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
Aforismos,pensamentos & verdades de Mário Quintana
Mário Quintana, nas palavras de Fausto Cunha "soube manter-se fiel ao seu gênio poético, à sua vocação lírica, quando tantos em torno dele se esgotavam em caminhos equivocados". E poetando suas emoções, seus sentimentos, ele faz de si um espelho do mundo que o cerca, não raro abrindo mão de sua face dita angelical para refletir imagens da vida com fina ironia e, às vezes, com ácido sarcasmo.Do Caderno H
A Arte de Ler
O leitor que mais admiro é aquele que não chegou até a presente linha. Neste momento já interrompeu a leitura e está continuando a viagem por conta própria.
A Carta
A Carta
Quando completei quinze anos, meu compenetrado padrinho me escreveu uma carta muito, muito séria: tinha até ponto-e-vírgula! Nunca fiquei tão impressionado na minha vida.
A Coisa
A Coisa
A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.
As Indagações
As Indagações
A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
A Voz
A Voz
Ser poeta não é dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras.
Ars Longa
Ars Longa
Um poema só termina por acidente de publicação ou de morte do autor.
Arte Poética
Arte Poética
Esquece todos os poemas que fizeste. Que cada poema seja o número um.
Biografia
Biografia
Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.
Cartaz para uma feira do livro
Cartaz para uma feira do livro
Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.
Citação
Citação
De um autor inglês do saudoso século XIX: "O verdadeiro gentleman compra sempre três exemplares de cada livro: um para ler, outro para guardar na estante e o último para dar de presente."
Citação 2
Citação 2
E melhor se poderia dizer dos poetas o que disse dos ventos Machado de Assis: "A dispersão não lhes tira a unidade, nem a inquietude a constância."
Contradições
Contradições
... mas o que eles não sabem levar em conta é que o poeta é uma criatura essencialmente dramática, isto é, contraditória, isto é, verdadeira.E por isso, é que o bom de escrever teatro é que se pode dizer, como toda a sinceridade, as coisas mais opostas.Sim, um autor que nunca se contradiz deve estar mentindo.
Cuidado
Cuidado
A poesia não se entrega a quem a define.
Das Escolas
Das Escolas
Pertencer a uma escola poética é o mesmo que ser condenado à prisão perpétua.
Destino Atroz
Destino Atroz
Um poeta sofre três vezes: primeiro quando ele os sente, depois quando ele os escreve e, por último, quando declamam os seus versos.
Do Estilo
Do Estilo
O estilo é uma dificuldade de expressão.
Dos Leitores
Dos Leitores
Há leitores que acham bom o que a gente escreve. Há outros que sempre acham que poderia ser melhor. Mas, na verdade, até hoje não pude saber qual das duas espécies irrita mais.
Dos Livros
Dos Livros
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores.
Dupla Delícia
Dupla Delícia
O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.
Educação
Educação
O mais difícil, mesmo, é a arte de desler.
Fatalidade
Fatalidade
O que mais enfurece o vento são esses poetas invertebrados que o fazem rimar com lamento.
Feira de Livro
Feira de Livro
O que os poetas escrevem agrada ao espírito, embeleza a cútis e prolonga a existência.
Leitura
Leitura
Se é proibido escrever nos monumentos, também deveria haver uma lei que proibisse escrever sobre Shakespeare e Camões.
Leitura 2
Leitura 2
Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada.
Leituras
Leituras
— Você ainda não leu O Significado do Significado? Não? Assim você nunca fica em dia.
— Mas eu estou só esperando que apareça. O Significado do Significado do Significado.
Leituras 2
Leituras 2
Não, não te recomendo a leitura de Joaquim Manuel de Macedo ou de José de Alencar . Que idéia foi essa do teu professor?Para que havias tu de os ler, se tua avozinha já os leu? E todas as lágrimas que ela chorou, quando era moça como tu, pelos amores de Ceci e da Moreninha, ficaram fazendo parte do teu ser, para sempre.Como vês, minha filha, a hereditariedade nos poupa muito trabalho.
Lógica & Linguagem
Lógica & Linguagem
Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de súbito a razão.
O Assunto
O Assunto
E nunca me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.
O Poema
O Poema
O poema essa estranha máscara mais verdadeira do que a própria face.
O Trágico Dilema
O Trágico Dilema
Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita
Palavra Escrita
Por vezes, quando estou escrevendo este cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Poema
Poema
Mas por que datar um poema? Os poetas que põem datas nos seus poemas me lembram essas galinhas que carimbam os ovos...
Poesia & Lenço
Poesia & Lenço
E essa que enxugam as lágrimas em nossos poemas com defluxos em lenços... Oh! tenham paciência, velhinhas... A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!
Poesia & Peito
Poesia & Peito
Qual Ioga, qual nada! A melhor ginástica respiratória que existe é a leitura, em voz alta, dos Lusíadas.
Refinamentos
Refinamentos
Escrever o palavrão pelo palavrão é a modalidade atual da antiga arte pela arte.
Ressalva
Ressalva
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
Sinônimos
Sinônimos
Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
Sonho
Sonho
Um poema que ao lê-lo, nem sentirias que ele já estivesse escrito, mas que fosse brotando, no mesmo instante, de teu próprio coração.
Tempo
Tempo
Coisa que acaba de deixar a querida leitora um pouco mais velha ao chegar ao fim desta linha.
Veneração
Veneração
Ah, esses livros que nos vêm às mãos, na Biblioteca Pública e que nos enchem os dedos de poeira. Não reclames, não. A poeira das bibliotecas é a verdadeira poeira dos séculos.
Vida
Vida
Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.
*Pensamentos extraídos do livro "Do Caderno H", Editora Globo - Porto Alegre, 1973, págs. diversas.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Seis ou Treze Coisas que Aprendi Sozinho
"O Guardador de Águas",Ed. Civilização Brasileira.
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre aspalavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdadenem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,etc.
(essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
12Seu França não presta pra nada
-Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu
as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.
13Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.Em que os capins lhes entram,
aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono,
apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos
Gravata de urubu não tem cor.
Fincando na sombra um prego ermo, ele nasce.
Luar em cima de casa exorta cachorro.
Em perna de mosca salobra as águas se cristalizam.
Besouros não ocupam asas para andar sobre fezes.
Poeta é um ente que lambe as palavras e depois se alucina.
No osso da fala dos loucos têm lírios.
Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
Uma chuva é íntima
Se o homem a vê de uma parede umedecida de moscas;
Se aparecem besouros nas folhagens;
Se as lagartixas se fixam nos espelhos;
Se as cigarras se perdem de amor pelas árvores;
E o escuro se umedeça em nosso corpo.
Em passar sua vagínula sobre as pobres coisas do chão, a
lesma deixa risquinhos líquidos...
A lesma influi muito em meu desejo de gosmar sobre aspalavras
Neste coito com letras!
Na áspera secura de uma pedra a lesma esfrega-se
Na avidez de deserto que é a vida de uma pedra a lesma
escorre. . .Ela fode a pedra.
Ela precisa desse deserto para viver.
Que a palavra parede não seja símbolo
de obstáculos à liberdadenem de desejos reprimidos
nem de proibições na infância,etc.
(essas coisas que acham os
reveladores de arcanos mentais)Não.
Parede que me seduz é de tijolo, adobe
preposto ao abdomen de uma casa.
Eu tenho um gosto rasteiro de
ir por reentrâncias
baixar em rachaduras de paredes
por frinchas, por gretas - com lascívia de hera.
Sobre o tijolo ser um lábio cego.
Tal um verme que iluminasse.
12Seu França não presta pra nada
-Só pra tocar violão.
De beber água no chapéu
as formigas já sabem quem ele é.
Não presta pra nada.
Mesmo que dizer:
- Povo que gosta de resto de sopa é mosca.
Disse que precisa de não ser ninguém toda vida.
De ser o nada desenvolvido.
E disse que o artista tem origem nesse ato suicida.
13Lugar em que há decadência.
Em que as casas começam a morrer e são habitadas por
morcegos.Em que os capins lhes entram,
aos homens, casas portas
a dentro.
Em que os capins lhes subam pernas acima, seres a
dentro.
Luares encontrarão só pedras mendigos cachorros.
Terrenos sitiados pelo abandono,
apropriados à indigência.
Onde os homens terão a força da indigência.
E as ruínas darão frutos
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Mil vezes lindo!
..."E, quando notou que aceitava em pleno o amor,
sua alegria foi tão grande que
o coração lhe batia por todo o corpo,
parecia-lhe que mil corações batiam-lhe
nas profundezas de sua pessoa.
Um direito-de-ser tomou-a,
como se ela tivesse acabado de chorar
ao nascer."(Clarice Lispector)
sua alegria foi tão grande que
o coração lhe batia por todo o corpo,
parecia-lhe que mil corações batiam-lhe
nas profundezas de sua pessoa.
Um direito-de-ser tomou-a,
como se ela tivesse acabado de chorar
ao nascer."(Clarice Lispector)
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Exercícios de Ser Criança
Tenho um livro sobre águas e meninos.Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para
mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos
A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que
do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira
Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar
água na peneira.
No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge
ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro botando
ponto final na frase.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
Manoel de Barros ganhou dois prêmios em 1996 relativos ao livro Exercícios de Ser Criança: Prêmio Odilo Costa Filho - Fundação do Livro Infanto Juvenil e Prêmio da Academia Brasileira de Letras.
P.S. Acho que amo tanto assim o Manoel, porque só ele consegue resgatar a menininha que eu fui: fantasiosa, falante e - como talvez ele diria- muito inventadeira de estórias.
domingo, 6 de abril de 2008
Livro Sobre o Nada
Fragmentos:"Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora."
Como não se apaixonar perdidamente? O Manoel é surpeendente e totalmente subversivo em todos os sentidos: linguísticos e amorosos.
Manoel de Barros
Tenho postado alguns fragmentos do extraordinário Manoel de Barros, que para mim e outros tantos, é um dos maiores poetas brasileiros. O conheci alguns anos atrás em entrevista a Caros Amigos. Foi uma paixão à primeira lida.Manoel, poeta e fazendeiro mato-grossense, nasceu em 1916 e teve seu primeiro livro publicado em 1937 - Poemas concebidos sem pecado. Passou a ser mais conhecido a partir do ano de 1997, quando ganhou o prêmio Nestlé de Literatura. De seu "Livro sobre Nada", Editora Record - Rio de Janeiro,1997
A linguagem do Manoel é absurdamente simples, poética e inesperada. E simplicidade não é algo fácil, é um exercício complexo de desapego de vaidades ou como ele mesmo em entrevista ao jornalista Bosco Martins para Caros Amigos definiu tão bem: “Tudo o que eu aprendera até meus noventa anos era nada; meus conhecimentos eram sensoriais. O que aprendi em livros depois não acrescentou sabedoria, acrescentou informações. O que sei e o que uso para a poesia vem de minhas percepções infantis”. Outra frase sua que adoro, diz: “desaprender oito horas por dia ensina os princípios..”( Livro das ingnorãças)
sábado, 29 de março de 2008
Fragmentos de um planeta chamado Clarice Lispector

"Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil."
“O que sinto eu não ajo. O que ajo não penso. O que penso não sinto. Do que sei sou ignorante. ...A vida é uma missão secreta, tão secreta é a verdadeira vida que nem à mim, que morro dela, me pode ser confiada a senha, morro sem saber de quê. E o segredo é tal que, somente se a missão chegar a se cumprir é que, por um relance, percebo que nasci incumbida - toda vida é uma missão secreta. Do que sinto não ignoro. Não me entendo e ajo como se me entendesse.”
"Gosto dos venenos mais lentos!Das bebidas mais fortes! Das drogas mais poderosas!Dos cafés mais amargos! Tenho um apetite voraz. E os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: E daí? Eu adoro voar!"
"Algo está sempre por acontecer. O imprevisto improvisado e fatal me fascina.Já entrei contigo em comunicação tão forte que deixei de existir sendo.Você tornou-se um eu.É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.É tão silencioso.Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?Dificílimo contar: olhei para você fixamente por uns instantes.Tais momentos são o meu segredo.Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamei isto de estado agudo de felicidade."
"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
"E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar."
sexta-feira, 21 de março de 2008
A comodidade da alma
Trecho de uma carta de Clarice Lispector a uma amiga. É comovente e bela a lucidez com que ela reconhece o quanto é difícil permanecer fiel a si mesmo e o preço alto que pagamos pela ousadia de buscar o que julgamos ser nosso. Acredito que a convicção inabalável do que nos pertence é nosso salvo-conduto para não desistirmos de nossos sonhos e de nós mesmos e principalmente não nos acomodarmos diante de uma vida sem sentido só porque é menos doloroso. Só pra arrematar esta frase dela diz tudo: "quem sabe de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem!?" A minha eu não sei... Quem sabe?!“1947 Berna - Suíça "Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma". Clarice”. Amo Clarice
quinta-feira, 13 de março de 2008
Só o Tempo
Enya - Only Time (tradução) Enya
Só o Tempo
Quem pode dizer para onde vai a estrada?
Para onde flui o dia ?
Só o tempo ...
E quem pode dizer se o seu amor cresce,
conforme seu coração escolhe?
Só o tempo...
Quem pode dizer por que seu coração suspira
conforme seu amor voa?
Só o tempo
E quem pode dizer por que seu coração chora,
quando seu amor morre?
Só o tempo...
Quem pode dizer quando os caminhos se cruzam,
que o amor deve estar em seu coração ?
E quem pode dizer quando o dia termina,
se a noite guarda todo o seu coração?
se a noite guarda todo o seu coração...
Quem sabe?
só o tempo...
Quem sabe?
Só o tempo...
Só o Tempo
Quem pode dizer para onde vai a estrada?
Para onde flui o dia ?
Só o tempo ...
E quem pode dizer se o seu amor cresce,
conforme seu coração escolhe?
Só o tempo...
Quem pode dizer por que seu coração suspira
conforme seu amor voa?
Só o tempo
E quem pode dizer por que seu coração chora,
quando seu amor morre?
Só o tempo...
Quem pode dizer quando os caminhos se cruzam,
que o amor deve estar em seu coração ?
E quem pode dizer quando o dia termina,
se a noite guarda todo o seu coração?
se a noite guarda todo o seu coração...
Quem sabe?
só o tempo...
Quem sabe?
Só o tempo...
sexta-feira, 4 de janeiro de 2008
Poesia

Que me venha esse homem
Que me venha esse homem
Que me salve esse homem
Bruna Lombardi
Que me venha esse homem
depois de alguma chuva
que me prenda de tarde
em sua teia de veludo
que me fira com os olhos
e me penetre em tudo.
Que me venha esse homem
de músculos exatos
com um desejo agreste
com um cheiro de mato
que me prenda de noite
em sua rede de braços
que me perca em seus fios
de algas e sargaços.
Que me venha com força
com gosto de desbravar
que me faça de mata
pra percorrer devagar
que me faça de rio
pra se deixar naufragar.
Que me salve esse homem
com sua febre de fogo
que me prenda no espaço
de seu passo mais louco.
Ultimo dia de 2007
“Não preciso do fim para chegar.Me procurei a vida inteira e não me achei... Descobri que todos os caminhos levam à ignorância..."
O grande Manoel de Barros me leva a reflexões profundas neste último dia do ano de 2007. É o fim de um ciclo chamado ano, o que inevitavelmente nos leva a uma prestação de contas interno. É a hora que paramos para nos sentenciar se passamos ou não de ano.
Hoje quero romper com esta lógica! E num ato transgressor e generoso validar todos os acertos e erros, que no final das contas têm o mesmo peso na construção da pessoa que sou. Alias é necessário admitir que nem mesmo sei se os acertos foram acertos e os erros foram erros. Tudo é uma questão de crença pessoal. É aqui também que sintetizamos nossa mais profunda ignorância.
Vamos combinar então que nosso compromisso será sempre com a felicidade e que no final de nossas contas valerá a intencionalidade. E mais importante ainda: descobrir que o fim não existe e que tudo é processo contínuo, todos passaremos de ano com louvor. Nota dez pra todo mundo! Vamos virar 2007 de alma lavada e coração aberto para as emoções de 2008.
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
domingo, 12 de agosto de 2007
Metade (Oswaldo Montenegro)
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para faze-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...
Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...
Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção...
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim é todo mundo:
Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
uma parte de mim é multidão:
uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:
Uma parte de mim pesa, pondera:
outra parte delira.
Uma parte de mim é permanente:
Uma parte de mim é permanente:
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem:
Uma parte de mim é só vertigem:
outra parte,linguagem.
Traduzir-se uma parte
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte
-será arte?
Ferreira Gullar
Ferreira Gullar
Importante Tarefa
Hoje concluímos uma capacitação para recepcionistas da Seduc, fui convidada a fazer o encerramento, oportunidade em que li o texto abaixo (Morre Lentamente - Neruda) e conclui que acima de qualquer missão que possamos ter na vida, seja ela pessoal ou profissional, a maior missão deve ser com a felicidade, isso pode parecer óbvio, mas a rotina e os problemas diários acabam nos tirando o foco desse compromisso tão esquecido. Na verdade é necessário que abandonemos os trilhos para que se possa encontrar as trilhas!
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